Ficarei alguns dias fora, mas deixo a programação poético-musical para os próximos eventos:
1) Dia 25 de Outubro - La Mancha - Jaguarão - RS Lançamento do CD Memorial de Campo
Letras minhas, com melodias de Alessandro Gonçalves, arranjos de Everson Maré e interpretação do cantor missioneiro Ângelo Franco.
2) Dia 26 de Outubro - Concórdia - SC - Festival Fronteira da Canção - 2 canções com letras minhas e melodias de Paulo Timm (Interpretação de Maria Conceição e Robledo Martins) e Miguel Díaz (com o grupo El Andén - La Plata - Argentina)
3) Dia 16 de Novembro - Mesa Redonda 'Amor, Revolução e Liberdade' - Feira do Livro de Pelotas
4) Dia 18 de Novembro - Feira do livro de Herval - Lançamento do Livro 'Sobre Amores e outras utopias' e, possivelmente a oficina de poesia Poemarte (com a participação dos atores Fernando Petry - como Dom Quixote e Sandro Calvetti - como Sancho Pança e ainda o confrade Paulo Timm nas canções)
5) Dia 21 de Novembro - Lançamento do CD Paisagem Interior em Pelotas, com letras minhas e melodias de Paulo Timm e Alessandro Gonçalves, na interpretação de Marco Aurélio Vasconcellos)
6) Dia 23 de Novembro - Lançamento do CD Paisagem Interior no espaço La Mancha - Jaguarão RS, com letras minhas e melodias de Paulo Timm e Alessandro Gonçalves, na interpretação de Marco Aurélio Vasconcellos)
7) Dia 30 de Novembro - Lançamento do Livro Sobre Amores e outras utopias em Arroio Grande - A confirmar
8) Dias 07 e 08 de dezembro - Califórnia da Canção de Uruguaiana - com a canção de Barro e Luz - Letra minha com melodia de Paulo Timm e interpretação de Marco Aurélio Vasconcellos.
www.martimcesar.com.br
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
A verdadeira pátria do homem é a infância. Jose Maria Rilke
Premonição
Quando
eu tinha sete anos
Uma
carreira verdadeiramente promissora me esperava.
Mas
o destino tem seus mistérios...
Seus
desígnios insondáveis.
Uma
bola 'Dente de leite' envelhecida, ressecada,
Um
chute quase perfeito na trave esquerda,
No
cantinho esquerdo, indefensável,
Mas
que fez uma curva aberta, fugindo do goleiro,
Uma
curva que fez a bola pegar no poste,
Que
era, por sinal, o pé da prateleira
O
poste esquerdo da prateleira da sala de casa.
Minha
área improvisada nos dias de chuva.
A
prateleira que era o xodó da mãe,
E
que tinha taças e baixelas,
E
que tinha pratos e copos de todos os tipos,
E
alguma importância.
Foi
um chute seco, desferido a la Rivelino,
No
canto esquerdo. Bem no pé da trave. Perfeito.
Cheguei
a comemorar por antecipação.
Mas
a prateleira não achou o mesmo.
Cismou
de renguear, de se agachar de lado.
Em
câmera len-ta. Em câmera mui-to len-ta.
E,
em câmera mais len-ta a-in-da, foi caindo,
Assim
meio de lado, meio de frente.
Veio
abaixo. Es-pa-lha-fa-to-sa-men-te.
Não
preciso dizer que uma terceira guerra mundial,
Um
novo meteoro extinguindo os dinossauros,
Uma
bomba de hidrogènio caindo na calçada em frente,
Não
teria o efeito perigoso e negativo daquele impacto,
Muito
menos o ruído. O estrondo. O estardalhaço.
Quando
a mãe voou pela porta dos fundos, branca, aturdida,
Por
entre os cacos de vidro,
Decidida
a salvar cada pedaço que resumia, até ali,
A
história da sua vida.
Foi
somente aí que eu pude descobrir,
Como
em uma visagem premonitória,
Que
ali, justamente ali, após aquele lance quase genial,
Justamente
ali...
Havia
acabado definitavemente
A
minha promissora carreira
de
jogador de futebol.
Martim
César (em parceria com o confrade Daniel Moreira)
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
O tempo que corre fora, não é o que corre por dentro...

Percepções
Percebo
quase nada.
Vivo
minha vidinha cotidiana.
Não
percebo o tempo
Atirando
poeira nos retratos.
Não
percebo o tempo
Colocando
rugas nos espelhos.
Percebo,
talvez, um pouco
A
inexorável partida dos amigos.
Isso
percebo.
Mas
percebo pouco.
Mas
há algo que percebo bem:
O
ponteiro do relógio vai seguir
(em
seu tictac quase imperceptível)
Depois
que eu já não perceber
mais nada.
Martim
César
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Todo está clavado en la memoria, espina de la vida y de la historia - Leon Gieco

Por
onde passou o
Condor
Dizem
que nunca morreram.
Que
estão aí. Que renasceram uma e mil vezes,
Por
mais que os fuzilem.
Por
mais que os desapareçam.
Por
mais que pensem que eles se calaram.
Estão
aí... Hidalgo se chamam. Morelos também. E Zapata.
E
centenas mais. Milhares mais. Milhões mais.
Pois
têm a estranha mania de se multiplicar.
E,
assim, causar a fúria dos que se creem acima dos mortais.
São
esses meninos que enfrentarão os tanques,
Com
uma flor para ofertar.
São
essas meninas que aparecerão nos jornais,
Como
perigosas guerrilheiras,
Como
desajustadas crias de uma família cristã.
Essas
que teriam tudo para serem devotas e obedientes,
Mas
não são. Pois têm o bendito defeito de se rebelar.
Maravilhosas
ovelhas negras
Que
não se curvarão jamais frente à opressão.
Rigoberta
se chamam. E Maria Helena. E Delmira. E Anaclara.
Aí
estão... rompendo os casulos hipócritas de um poder
Que
se sustenta alimentando a si mesmo.
São
esses que não se submetem ao poder dos poucos
Que
querem comandar a muitos,
Argumentando
que sempre foi assim,
Por
que assim Deus quis...
E
o Deus que assim quis foi, é claro, o dos seus altares,
Onipresente
e opressivo, rico e conservador.
Um
Deus homem, por
supuesto.
E
que deve ser chamado de senhor...
A
quem devemos fé e submissão.
Esse
que não é o dos sem-teto e o dos sem-terra,
Embora
se disfarce como se assim fosse.
Esse
que não é o dos milhões de subjugados
Por
todos os cantos deste mundo,
Pelos
séculos dos séculos, amém.
Dizem
que seguem mais vivos do que antes,
Que
suas vozes transcenderam os calabouços.
Que
são muitos e que gritam por justiça,
Mais
do que nunca.
Dizem
que a terra que os cobriu
Não
conseguiu encarcerar as suas almas.
Elas
sussurram. Elas murmuram. Elas falam.
Elas
gritam pelas bocas dos homens novos.
Das
mulheres novas. E elas não pedem. Exigem!
Elas
não reclamam, vão em busca!
Constroem
o futuro. Preparam o caminho.
São
vozes de Martí. De Neruda. E de Sandino.
São
vozes de Guevara. E de Lamarca. E de Zumbi.
São
vozes de Lilian e Universindo. De Juan e de Rodolfo.
São
palavras de Allende, ressoando dentro de nós.
São
alamedas por onde cruzam os homens novos.
As
mulheres novas, sem dogmas nem preconceitos.
Os
que construirão esse futuro que mais cedo que tarde,
Ainda
chegará. Onde o homem não será o algoz do homem.
Onde,
enfim, saberemos que todos somos um só.
Onde
o mais humilde será o mais privilegiado
Como
nos disse, certa vez, um dos primeiros visionários
Desse
tempo que um dia ainda haveria de chegar.
São
vozes de Violeta, de Dolores e de Elena.
De
Elena, sim, e de sua mãe Tota Quinteros.
Nunca
se esqueçam! Arrancadas da vida para a eternidade.
Uma
pelas lembranças, cada vez mais vivas, de sua filha,
Pelo
amor infinito que deveria ser o de todo ser humano.
Outra
pelas garras dos chacais protegidos por suas fardas.
Elas
aí estão. E eles, os chacais, há muito já se foram.
Que
a terra nunca lhes seja leve.
Que
a mãe-terra os deserde e lhes pese sobre os ossos.
E
mesmo os que ainda vivem estão mortos,
Tentando
se esconder, em vão, atrás de justificativas inúteis,
Pois
a obediência devida e o ponto final já não lhes protegem.
Já
não lhes servem de escudo. Não disfarçam suas garras.
Não
lhes salvaguardam a consciência. Não lhes absolve.
Não
lhes defendem da visão dos seus atos sanguinários.
Pois
esses que usaram a espada contra a utopia,
Esses
que covardemente se esconderam atrás de fuzis,
E
de canhões. E de metralhas, covardemente,
Como
abutres devorando a própria espécie,
Esses
morreram e morrerão para todo o sempre,
Com
seus nomes esquecidos. Manchados.
Apagados.
Por não merecerem nossa voz.
Estarão,
para sempre, condenados pela infâmia e o ostracismo.
E
os que forem lembrados alguma vez,
Só
viverão por instantes. Por breves instantes,
Para
poderem morrer de novo. E de novo. E outra vez.
Cruzando
os círculos de Dante até chegarem ao último,
Onde
estarão instalados até o final...
Sim...
até o esperado final do final dos tempos.
No
último círculo. No último. E se houver outro...
Um
último círculo além do último. Ali estarão.
Para
sempre... para todo o sempre.
Martim
César
terça-feira, 15 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Feito certos animais, ou feito as crianças, há dois engenhos humanos que sempre me fascinaram: escadas e espelhos. Martim César

Escadas
Desço as
escadas
de
mim
mesmo...
degrau
por
degrau...
E
ali estou eu:
bem
no
fundo!
Ou
melhor, ali está o eu que eu já fui um dia.
E
o eu que já fui, agora é ele.
E
- ao me ver chegar – responde, desaforado:
novo...
de
tudo
subir
'Pode
Não
falo com estranhos!'
Martim
César
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Onde termina a árvore, onde começa o pássaro?

Raiz
e asas
Arvorizei-me
um dia,
Brotaram-me
raízes rumo ao chão,
Mas
eu segui batendo asas.
Arvorizei-me
um dia,
Minhas
raízes ficaram cada vez maiores,
Ainda
que invisíveis.
Tu
não as vês, mas estão aí...
É
que hoje eu trago a minha terra sob os pés.
Martim
César
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
terça-feira, 8 de outubro de 2013
John! Eu não esqueço... a felicidade é uma arma quente! (Antônio)
Comentários
a respeito do tempo
Belqui,
te lembras
Dos
sonhos antigos
Dos
dias vividos sem norte e sem sul?
Te
lembra da roupa surrada, na beira da estrada
Do
tango argentino bem mais do que um Blues?
Belqui,
te lembras
Que
o velho era novo
Pelas
ruas o povo se matando por paz?
Do
condor vigiando pelos becos e esquinas
Enquanto
a menina a gente beijava no filme em cartaz?
Belqui,
o tempo passou e ninguém avisou
Que
outro iria chegar...
Belqui,
eles buscam teu rumo
Sem
saber que o teu mundo
Está
em outro lugar...
Belqui,
eles seguem os mesmos contando metais
Mas
são pobres mortais que não podem voar...
Por
favor, não se assustem,
Eu
quis dizer, me desculpem,
Que
são ricos demais e não podem sonhar!
Belqui,
te lembras
De
uma canção solta ao vento
E
que não havia silêncio que calasse tua voz?
Sem
dinheiro no banco, mas dizendo, no entanto,
Que
ninguém te diria de que lado nascia a luz do teu sol?
Belqui,
te lembras
Desse
dia... faz pouco!
Em
que estiveste conosco em um lugar mais ao sul?
Belqui,
o teu norte está em ti e nele canta um país,
Sem
entender teu perfil de um cidadão... incomum.
Martim
César
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Sábado 12 de outubro - Biblioteca Pública de Jaguarão - Entreda Franca
Participações especiais:
Paulo Timm
Leonardo Oxley
Hélio Ramirez
Gilberto Isquierdo
Alessandro Gonçalves
André Timm
Fernando Petry
Sandro Calvetti
E Jota Martim
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Quando eles vieram tão pouco possuíam, porém se diziam donos desta terra... Martim César
(continuação - a Enilton Grill)
(Imagem do livro extraída do Tótem de Cléber Carvalho)
(Imagem do livro extraída do Tótem de Cléber Carvalho)
América,
dá-me teu silêncio...
América
dá-me tuas sonoridades, teus nomes esquecidos,
Tua
música criada desde o fundo dos teus espíritos de selva,
Dos
teus nomes de pedra e barro, de salitre e de cobre.
Dá-me
teu silêncio e teu martírio, teu pranto e teu lamento,
Porque
eu preciso contar, ainda que não me escutem,
Ainda
que estes tempos já não queiram te lembrar,
Eu
preciso recordar. E te busco, desde os confins da memória.
Desde
a noite dos tempos, desde as primeiras fogueiras.
Ahoniken,
povo Tehuelche, Selknams e Yaganes,
Chonos,
Huilliches, Payos e Kawésqars canoeiros,
Todos
eles e outros mais te miravam desde o sul.
Ou
desde o mundo anterior ao sul. Muito antes do sul.
Porque
não havia sul nem norte, oeste ou leste.
Havia
o mundo. Existiam as estações. O dia e a noite.
Existiam
as ilhas e as geleiras, o temporal e a ventania.
E
existia o mar que era o final e o começo de tudo.
América,
dá-me teu canto mais sentido, teu silêncio aborígene,
Tuas
palavras naturais, teu idioma híbrido de gente e terra,
Tuas
noturnas visões de um céu misterioso e intocado.
Mapuches
e araucanos te miravam desde onde o sol nascia,
Te
adivinhavam sob as luzes infinitas do firmamento,
Sob
a pálida e gigantesca lua, com suas formas variáveis,
Debaixo
de mil constelações, de poeiras incandescentes,
Desde
onde milhares de estrelas surgiam a cada anoitecer.
Ali
cruzavam as montanhas, tão altas como deuses impassíveis,
Ali
admiravam o voo dos condores de gigantescas sombras,
Ali
imitavam e reverenciavam os silenciosos pumas caçadores.
E
foi assim por milhares de luas e por quase infinitas gerações,
Por
incontáveis noites de histórias e de cantos ao redor do fogo,
Por
milhares de caçadas de focas e guanacos, de lobos e baleias.
Até
que um dia, de repente, apareceram os primeiros vestígios
De
que tudo acabaria, de que o final viria pelas mãos do mar,
O
mesmo misterioso mar que trazia alimento a tantos povos.
Ruído.
Vozes. Alarido. Estranhas palavras tocadas pelo vento.
Rumores
agudos e metálicos que este mundo jamais ouvira,
E
que trariam o cheiro da morte humana a estes confins.
Foi
quando assombrosas casas de madeira chegaram até aqui.
E
delas saíram homens pálidos e barbudos, metálicos e hostis.
E
mesmo os não ferozes, trouxeram males que não conhecias.
América,
dá-me todas as imagens de dor, todas as tuas chagas,
E
ainda assim serão poucas para contar tudo o que sucedeu.
América,
dá-me teu silêncio mais profundo, tua canção sentida,
Feita
de vento e de pedra, de neve e de água, de silêncio, enfim.
De
silêncio. Sim... de silêncio.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Como se jogasse a vida...
Uma
guerra entre dois reis
De
uma carta de baralho estava suspensa a minha vida
Se
fosse um Às ou fosse um Rei eu gritaria que era sorte
Tudo,
no entanto, dependia de outra mão de fino corte
(E
eu ali dando o meu reino só por vencer essa partida)
Tirei
do maço um Rei de Espadas, majestoso pelo porte
E
vibrei comigo, pois nele eu vi uma batalha já vencida
Faltava
pouco! Mas o oponente retrucou-me a investida
Num
Rei de Bastos. Que foi basta à certeza da sua morte.
Eis
a guerra entre dois reis... ainda mais cresceu o drama.
Lanças
e escudos, e valetes a se medirem, frente a frente
(Obviamente,
de permeio, sempre as cores de uma dama)
Tapei
com Às. Ele com dez. Seguiu-se a luta, inclemente
Destapou
um três. Pensei: é mesmo a glória que me chama
Pobre
de mim! Azar, enfim...
pois destapei um dois somente!
Martim
César
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Meu pai contava, seu moço, que em tempos do meu avô havia festa, alvoroço, na volta dos pescadô... Martim César

O
rio é o sangue da terra
Quem
mata a sede de um rio
Que
está morrendo no olhar
…
pedaço de céu que caiu
E
foi correndo até o mar?
Se
hoje no chão das margens
Só
a tristeza é quem passa
Se
o lixo sobre a paisagem
Manchou
o branco das garças
Quando
enfim entenderemos
Que
cada rio é uma artéria
E
que cada gota do seu leito
É
o próprio sangue da terra?
É
o que dá vida ao planeta...
A
água, o solo, o ar puro...
Herança
que o homem deixa
Pras
gerações do futuro
Há
um rio morrendo de sede
Frente
ao descaso do homem
Que
atira rede e mais rede
Mas
já não mata a sua fome
Talvez
num dia... já perto!
Os
rios, cansados de tudo
Nos
mostrarão num deserto
O
que fizemos do mundo!
Martim César
terça-feira, 1 de outubro de 2013
A liberdade tem valor, nunca tem preço. Martim César
(Para Enilton Grill)
Imagem: Torres García

Imagem: Torres García

E te chamaram de América...
Tu
que dormias no anterior a tudo,
Na
primavera dos tempos. Na infância do mundo.
Tu
que eras presente eternamente continuado.
Terra
embalada por sons naturais. Sinfonia perpétua.
Água
esculpindo nas pedras o rumo dos rios,
Floresta
soprando no vento o gérmen da vida.
Tu
que eras palavra de mil bocas.
Grunhidos
e sinais, latidos e canções.
Idiomas
de gente e bicho. Tu que eras vegetal.
Folha
sussurrando ao vento. Chuva respingando o chão.
Tu
que não precisavas nome de terra, pois eras a própria terra.
Tu
que antes eras pedra e árvore, areia e campo,
E
entre eles eras água, líquido vital, rumoroso e puro,
Eras
filete escorrendo da neve da montanha,
Eras
a primeira gota derretida ao sol e a segunda gota,
E
depois o córrego que cantou na linguagem das pedras
E
que, mais abaixo, encontrou outro córrego,
E
assim se tornou um riacho e que se juntou a outros
E
que se tornou rio que, de afluente em afluente,
Foi
crescendo, alargando margens, saciando bocas,
Até
desembocar, ruidoso e imponente, no mar amplo
e
insondável.
Rio
que antes irrigou as selvas, campos e sertões,
E
encharcou pântanos, e fecundou vales,
Sendo
a fonte onde se saciariam animais e homens
E
de onde nasceriam os vegetais que seriam domesticados
Para
servirem de alimento e de ofício cotidiano,
E
que, por fim, plantariam o homem em cada lugar.
Porque
tu semearias os homens nestas imensidões,
Vindos
de terras distantes, atravessando estreitos gelados,
Em
tempos imemoriais, em sagas que não foram narradas,
Por
serem anteriores a estas eras, a estes tempos,
Mas
que foram tão reais que ainda estão em nossos gens,
Na
adoração ao fogo, na sobrevivência ao frio,
No
lobo renascido em cão, ainda hoje enterrando ossos,
Para
um inverno que já não é igual,
Mas
que sobrevive, implacável, em sua memória.
Os
homens, que também viriam em barcos, desde o poente,
De
lua em lua, de ilha em ilha, de geração em geração,
De
fogueira em fogueira, vencendo ondas e penhascos,
Até
alcançarem estas paragens de onde não mais sairiam.
E,
assim, por milênios te cruzaram de norte a sul,
De
oeste a leste, da cordilheira à pampa,
Da
floresta ao deserto, dos médanos até o mar.
E
se entrecruzaram, misturando seus sangues,
E
enredaram suas mãos e seus pés feito raízes,
E
pariram novos deuses da chuva e do trovão.
E
foi só então que os sons começaram a te nomear,
Só
então começaram a musicar teus nomes.
Porém
não eras América ainda, e sim a terra.
Somente
a terra, ainda sem nome, ou de muitos nomes,
Desde
o mundo Alakaluf, no extremo sul,
Gelado
e aquático, nevado e canoeiro.
Até
o povo Inuit no extremo norte do mundo,
Também
feito de gelo e de água, de nevascas e de vento,
Na
brancura eterna dos confins deste hemisfério.
E
entre esses dois lugares, nas distâncias abissais,
Sob
as noites de infinitas estrelas e planetas,
Objetos
misteriosos que se moviam sem parar,
Forjavam-se
homens e mulheres, mulheres e homens,
Cada
vez mais, noite após noite, vida após vida,
Para
que um dia tivesses esse nome que agora escrevo,
Esse
nome que veio de longe, de outros mares,
E
que levamos como filhos que não puderam escolher
Com
que palavra se reconheceriam, com que som,
E
que não sabemos se nos cabe, mas que ouvimos
E
que quando nos chamam, orgulhosos ou contrafeitos,
Jamais
indiferentes, atendemos.
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